Ruy monta Calabar em Niterói

Ruy Faria está em tempo de muito trabalho, se preparando para estrear em 15 de março o musical Calabar na cidade de Niterói, com artistas locais. Adaptado da peça escrita por Chico Buarque e Ruy Guerra em 1973, Calabar é a história de um traidor, que dependendo do ponto de vista, pode se tornar herói. Justamente esse ponto de vista que foi defendido em plena gerência militar, mostrando que as informações passadas para o povo de uma maneira geral, não devem ser aceitas de imediato como verdade absoluta, mas apreciadas criticamente. Ruy Faria trás essa mesma idéia para o nosso tempo.

A peça fala da invasão holandesa de 1630, e questiona a posição de Domingos Fernandes Calabar (1600-1635) no episódio histórico em que passa a tomar partido dos holandeses contra a coroa portuguesa. Chico Buarque escreveu esta peça em plena gerência militar e questiona a versão oficial sobre Calabar, que aparece nos livros didáticos como um dos maiores traidores que já existiram no país.

Naquela época era bastante comum o uso de metáforas para poder driblar a censura e assim dar o recado para o povo, denunciando a situação que o país estava vivendo.

A peça mostra um outro lado da moeda e questiona se Calabar era mesmo um traidor ou se estava simplesmente defendendo seu ideal de que a Holanda traria mais benefícios para o país do que Portugal. Neste caso ele estaria pensando não apenas em seu benefício próprio e sim no benefício de todos.

A intenção de Chico e Ruy Guerra não era de denunciar um erro histórico e propor uma revisão, mas sim de denunciar o próprio regime militar, a sua censura, e os veículos de comunicação a seu serviço, mostrando uma versão dos fatos sempre em sintonia com o sistema. Chico pretendia que o povo entendesse que é necessário questionar a veracidade daquilo que lhe é apresentado como fato.

— A grande questão da peça é essa: se Calabar é mesmo um traidor, como foi condenado e executado pela coroa portuguesa, ou se na verdade era alguém preocupado com o melhor para o Brasil naquele momento — conta Ruy Faria.

A peça, que foi dirigida por Fernando Peixoto, foi proibida duas vezes pela censura do regime militar, uma delas antes mesmo de estrear e, cúmulo do absurdo, foi proibida a divulgação da proibição.

— O projeto para montar o Calabar novamente já tem dois anos e foi feito originalmente para ser apresentado na cidade de Recife, como uma superprodução. Não deu certo e agora estou montando em Niterói, transformado em musical, e com menos personagens, num total de oito, os mais fortes, como Ana de Amsterdã, Bárbara, Martins de Albuquerque — diz Ruy.
Personagens fortes
Ruy conta que em cima da história de Calabar, Chico Buarque criou alguns personagens que não existiam, como Ana de Amsterdã e Bárbara, que na peça é amante de Calabar, e Sebastião dos Santos, que tinha tanta inveja de Calabar que tenta de todas as maneiras conquistar Bárbara. Quando a peça foi escrita, em 1973, os personagens tinham duplo sentido, e isso é mantido no musical.

— Tem também um papagaio safado que grita ‘oba, oba’ diante de qualquer safadeza que aparece na peça, e acaba se transformando em um boi voador e sai voando mesmo, em homenagem ao Renan Calheiros. A música do boi voador é bem conhecida: ‘Quem foi, quem foi, que falou do boi voador, manda prender esse boi, seja esse boi o que for’. As músicas são lindas e muito conhecidas. Além do Boi voador, tem também Bárbara, Fado tropical, Tatuagem e outras maravilhas — Fala Ruy.

O Boi voador é uma referência ao episódio da inauguração de uma ponte de madeira em Recife,em 1644, cuja atração foi um boi voando, isso porque alguém falou que era mais fácil um boi voar do que se fazer aquela ponte.

— Maurício de Nassau disse: então eu vou fazer as duas coisas, vou construir a ponte e fazer o boi voar , isso também está na peça. Ele também aparece na peça como um dos personagens. A história é muito engraçada — diz.

Na peça, Calabar não aparece em nenhum momento. O personagem não é materializado, ele só é citado.

— A peça foi construída com a idéia de não criar um herói. Ele é só citado e debatido. É o motivo central da peça, tudo gira em torno desse personagem que não aparece. Sua história é contada através dos outros personagens. Falam de sua execução pelos portugueses, que queriam que ele voltasse a lutar por eles e como não aceitou, foi executado. É muito interessante — elogia.

Segundo Ruy, esse projeto está sendo muito elogiado. Ele recebeu um convite do secretário da cultura de Niterói e faz questão de fazer com artistas locais, para valorizar e dar oportunidade a novos talentos.

— A cidade tem um teatro maravilhoso que é o Teatro Popular de Niterói, construído por Oscar Niemeyer, um local que é uma verdadeira obra de arte. A administradora do teatro, Marilda, comprou a idéia e está trabalhando comigo no projeto. O produtor é o Carlinhos e o produtor musical o Zé Neto, todos de Niterói, assim como figurino e cenário — comenta.

Para escolher o elenco, Ruy colocou anúncio em jornal e cerca de sessenta atores compareceram para o teste.

— Já escolhemos as pessoas, fizemos as primeiras leituras, e estamos ensaiando com tudo esquematizado para estréia em 15 de março próximo. Será uma temporada de seis apresentações, e a idéia é depois tentar sair pelo país com a peça — conta Ruy, que além de diretor da peça continua cantando com Carlinhos Vergueiro, na dupla “Carlinhos Vergueiro e Ruy Faria”.

Rosa Minine

OBS: Texto originalmente apresentado no Jornal “A nova democracia” e pode ser lido AQUI